Mostra Cinelimite: Helena Solberg - A necessidade de um programa de Difusão Cinematográfica
Em vista da Mostra Cinelimite, que aconteceu na Cinemateca Brasileira entre 19 e 28 de maio, trazendo em seu programa Mestras do Cinema Documental Brasileiro, filmes da diretora Helena Solberg, tratarei aqui da minha experiência de contato com sua obra e dos três filmes exibidos com nova digitalização: A Entrevista (1966), Meio-Dia (1969) e Das Cinzas… Nicarágua Hoje (1982).

O que sempre fez do programa de difusão da Cinemateca um destaque entre os cinemas de São Paulo foi seu contínuo papel de formação de público crítico e democratização tanto do acesso de público aos filmes quanto vice-versa. E não se poderia esperar outra coisa de uma mostra que visa apresentar digitalizações atualizadas de filmes historicamente importantes para o Cinema Brasileiro, mas também digitalizações de filmes inéditos do circuito de super 8 brasileiro.
Porém, ainda assim, não conhecendo Helena Solberg, ao entrar em contato pela primeira vez com sua filmografia, fiquei surpreso de nunca ter ouvido, ao longo dos últimos três anos na graduação de cinema, falarem dela — seja em conversa com cinéfilos, com professores em sala de aula ou em leituras próprias sobre Cinema Novo.
Mas por que deveria eu? Bem, Helena Solberg inicia seu cinema em meio à segunda geração de cinema novistas — com Cacá Diegues e Arnaldo Jabor na PUC-RJ —, tendo contato direto com os expoentes da época, como Rogério Sganzerla, que monta o primeiro documentário da diretora. Em seu período nos Estados Unidos, faz, dentro de sua Trilogia da Mulher, em 1974, um documentário que revoluciona o cinema documental feminista do país, The Emerging Woman, que faz “um mergulho horizontal num assunto extenso: 170 anos de história do movimento feminista no país” (TAVARES, 2011, p. 27). A partir da repercussão maestral do filme, então cria o International Woman’s Film Project, que produziria seus outros dois documentários da mesma trilogia, porém agora na América Latina. Não obstante, Helena então entra em uma fase de análises da relação imperialista dos Estados Unidos com a América Latina, sendo nessa fase, com apoio financeiro da PBS, que produz, entre outros documentários, o premiado com um Emmy, From The Ashes: Nicaragua Today (Das Cinzas… Nicarágua Hoje). Ao longo de toda sua carreira, a diretora faz 17 filmes, entre longa e curta-metragens, e entre documentários e ficções.

Eu poderia seguir descrevendo a filmografia da diretora, porém acho que já deixei clara sua relevância para o Cinema Feminista e Cinema Latino, além de explicar o porquê de minha surpresa de nunca ter entrado em contato com sua vasta e importante obra. Indico, porém, a leitura da tese de doutorado Helena Solberg: trajetória de uma documentarista brasileira, defendida por Mariana Tavares, com link disponível na bibliografia.
Seguindo. Visto tudo isso, proponho aqui que Helena Solberg talvez seja uma espécie de Alice Guy Blaché para o documentário moderno brasileiro. Explico: Alice é pouquíssimas vezes citada em livros que fazem panoramas da história do cinema. Mas, ao mesmo tempo, é uma das mais importantes cineastas do século XIX e dos primeiros 20 anos do século XX, havendo produzido estimados 1000 filmes. Helena, ao mesmo tempo, é poucas vezes citada dentro do panorama do Cinema Novo Brasileiro e do Cinema Documental Brasileiro, mas constitui uma obra única e pioneira para a história do documentário moderno brasileiro.
Esse quase apagamento (existem exceções) das duas cineastas nas bibliografias relativas tem o efeito de trazer à tona a misoginia enraizada tanto na história do mundo recente quanto dentro do próprio campo do cinema. Ao mesmo tempo, a revelação de suas obras serve de manifesto contrário; principalmente no caso de Solberg, que, em sua fase feminista, trabalha só com mulheres (com exceção de Mario Carneiro, fotógrafo brasileiro).
Quanto aos filmes da mostra
A obra da cineasta foi exibida em ordem cronológica, começando com A Entrevista (1966), passando por Meio-Dia (1970), e terminando com Das Cinzas… Nicarágua Hoje (1982). Aqui dedicarei maior análise ao primeiro.
A Entrevista (1966)

O primeiro filme de Solberg traz uma análise da condição da mulher brasileira de classe média, se fazendo profundo por meio da extensa coleta de depoimentos, no total “setenta entrevistas com moças de 19 a 27 anos”. Fazendo por meio da dialética imagem e som, e de uma dialética de montagem, uma crítica às forças sociais conservadoras — como família, escola religiosa, às vezes Estado, etc. — que ensinam desde pequenas que as mulheres têm que se casar, têm que seguir uma certa forma de viver e cuidar de si; seguir uma cartilha conservadora que diz o que deveria entender como “ser mulher”. Esta crítica-denúncia será desenvolvida ao longo do filme, e explicitada pelas imagens que se opõem aos diálogos.
Analisando o início da obra, podemos notar a força cinematográfica que esse embate entre imagens e depoimentos — presentes no filme de Solberg — traz. No início temos então a denúncia de uma mulher à educação conservadora, anunciando que só com a experiência prática da vida conseguiu mudar da visão que lhe foi ensinada. Trazida em contraste com a imagem de uma jovem se arrumando — o que depois descobrimos se tratar de seu casamento. Passados os letreiros iniciais, segue com imagens de crianças e bonecas fabricadas, acompanhadas de uma voz de “bruxa”, que anuncia que irá fazer suas “profecias”, cortando a imagem para uma escola religiosa. Onde adentramos provavelmente no passado da diretora, constituindo de imagens de freiras-professoras, mas também de crianças vestidas de forma igual (com uniforme). E conforme as imagens se substituem, acompanhamos o crescimento delas, chegando até a fase jovem-adulta, onde ainda as vemos com vestimentas iguais. Criando assim uma crítica feminista por meio da relação entre as bonecas fabricadas e as garotas educadas por freiras na escola religiosa conservadora.
Como esta análise inicial busca demonstrar, o primeiro filme de Helena Solberg, montado por Rogério Sganzerla e fotografado por Mário Carneiro, então já anuncia a força e os temas que a autora tratará ao longo de sua filmografia. Tanto na questão do feminismo, da mulher, à qual dedicará alguns filmes, quanto na questão da força conservadora imperialista externa, denunciada por meio da escola que tem vínculos à Igreja, junto da crítica que finaliza o filme à ditadura militar brasileira — que possui forte apoio dos Estados Unidos. Nascendo em forma já na linguagem do Moderno, se diferenciando dos filmes do Cinema Novo, que tratavam de classe contrária à dos diretores, como demonstrado por Mariana Tavares:
“A autonomia na escolha do tema – a condição da mulher de classe média, nos anos de 1960 – contraria a pauta cinemanovista que frequentemente elegia “a miséria de uma massa camponesa, sofredora e apática, não só do Nordeste brasileiro, como do campesinato latino-americano e do Terceiro Mundo em geral”, como referiu Jean-Claude Bernadet (2003, p. 240).”
Em uma breve nota, ver este filme restaurado e em tela grande foi uma experiência única e que permitiu todo o meu interesse seguinte em estudar e assistir mais da obra da diretora. Se este é seu primeiro filme, serve de anúncio para o que virá, uma obra consistente com força política-cultural-social e de relevada importância na história do Cinema Brasileiro, do Cinema Novo e do Cinema Latino-Americano.
Meio-Dia (1970)

O segundo filme exibido acompanha inicialmente um jovem que se revolta contra a escola, e de uma certa forma contra funcionários públicos que limpavam com enxada a grama de uma praça pública. Sendo este jovem não aceito em um jogo de futebol com semelhantes de sua idade, então desistindo e indo ficar sozinho na beira de um lago, onde decide jogar seus livros. Este plano serve de corte para uma sala de aula, onde estudantes se rebelam contra a instituição de ensino e seu professor, matando-o.
Meio-Dia bebe da crítica instaurada em Maio de 68 na França. Sendo uma ficção que se inspira “em Zéro de Conduite (Zero de Conduta, 1933), de Jean Vigo” (TAVARES, 2011, p. 43). Trazendo também um pouco da força que Les Quatre Cents Coups (1959) dá às crianças subjugadas pela sociedade — sendo o primeiro longa de Truffaut, e um dos primeiros da Nouvelle Vague Francesa.
Sendo o curta um manifesto contra o sistema, contra as regras e a censura. Servindo igualmente de crítica à ditadura militar recém-instituída no Brasil. Trazendo também uma música vetada pelo governo, a música É Proibido Proibir de Caetano Veloso e Os Mutantes. Deixo uma breve confissão aqui: entre os três filmes do programa, foi minha experiência de espectador preferida, pela força de subversão que traz.
Nicarágua Hoje (1982)

Morando nos Estados Unidos já há 12 anos, a diretora então decide sair do tema da mulher e do feminismo, para tornar seu olhar aos conflitos político-sociais que ebuliam na América Latina. Sendo este o primeiro filme produzido da série, em parceria com a TV pública, PBS. Mas antes de falar do filme, necessitamos contextualizá-lo.
A Nicarágua desde a década de 1910 esteve sob influência do governo estadunidense, que tentava e sucedia — por meio de incursões armadas — colocar políticos-fantoches nos cargos de alta patente. Mas claro que tal incursão se precedeu de uma luta armada liderada principalmente por Augusto Cesar Sandino. Este foi assassinado em 1934 pela Guarda Nacional recém-criada como instrumento militar para defender os interesses dos Estados Unidos no país, sob comando de Anastasio Somoza García. Sendo que a família Somoza passou a controlar o país em 1936, com apoio do país norte-americano.
Assim, inspirados na revolução cubana de 1959, a oposição nicaraguense cria em 1961 a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Movimento que irá ser resistência à ditadura Somoza. E que levará à sua derrocada em 1979, após perder apoio dos EUA.
Por meio de diversos recursos de documentário, Solberg então nos insere em um panorama do percurso da incursão e influência dos Estados Unidos na Nicarágua, nos apresentando e inserindo no contexto de conflito final entre a família Somoza e a FSLN, que se encerra com a fuga de Anastasio Somoza Debayle para Miami.
Utilizando o depoimento de uma família nicaraguense — os Chavarrías — para explicar como todo este conflito alterou a vida dos cidadãos e das famílias ao longo das décadas, algo que traz uma sensibilidade ao espectador. Mas indo além na inclusão de imagens de arquivo das invasões armadas dos militares norte-americanos. Junto de uma visita feita a um encontro paramilitar de nicaraguenses, em Miami, que decidiram treinar com armas de fogo, para voltar a seu país e defender os interesses dos Estados Unidos, da família Somoza. Entre diversos outros recursos utilizados.
Assim, nos demonstrando a pluralidade de recursos documentais, da visão documental que Solberg agora apresentava com distância das repressões e censuras da América Latina e do Brasil. Sendo que este documentário causou críticas nos Estados Unidos, por ser contra os interesses do país, sendo patrocinado e exibido em TV pública, ganhando até um Emmy — o prêmio deles de televisão. Sendo um documentário que abre a brecha para a produção seguinte de Solberg nas televisões norte-americanas.
A parceria da Cinemateca Brasileira com a Cinelimite
Como poderíamos olhar para o passado, conhecer e estudar nossa riquíssima história e cultura cinematográfica, se o registro da mesma estivesse em acesso restrito, deteriorado ou se inexistisse?
É esse princípio, da necessidade de preservação de uma memória cultural, de sua restauração, manutenção e conseguinte difusão, que permeia a criação e o funcionamento da Cinemateca Brasileira, e de tantas outras Cinematecas — como a do MAM no Rio, a de Curitiba, a Pernambucana, etc. Mas também de forma mais simples é o que gera a necessidade da criação de acervos e filmotecas, públicas ou privadas — sejam de instituições ou particulares.
Porém, se de um lado temos diversas entidades e pessoas em guarda de filmes em película, de outro temos pouco acesso à digitalização dos mesmos, o que muitas vezes restringe a quantidade de pessoas que podem assisti-los; principalmente quando falamos de filmes órfãos, experimentais, de origem pessoal.
E é nesse sentido, de tentar democratizar mais o acesso à digitalização desse material, que surgiu a Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros, da Cinelimite, “uma organização sem fins lucrativos dedicada à exibição, distribuição e digitalização (IDFB) do cinema brasileiro de repertório”.
Iniciativa esta, que já ajudou a levar a São Paulo, na ocasião da “46° Mostra”, o filme A Rainha Diaba (1973) restaurado. E que trouxe novamente, em parceria inédita com a Cinemateca Brasileira, a “Mostra Cinelimite”, que ocorreu entre 19 e 28 de maio, contendo mais de 40 filmes digitalizados pela IDFB, de filmes queer à animações, a documentários feministas, etc.
De igual modo, é ainda mais importante o programa “Digitalização Viajante”, feito em parceria com a ABPA, que busca democratizar a digitalização de filmes em Super 8 e em 8mm, por meio de um percurso de estados percorridos pela equipe da Cinelimite junto ao transporte de uma máquina de telecinagem, em prol de digitalizar filmes inéditos presentes principalmente em acervos pessoais dos diretores.
Se faço esse panorama, é porque vejo com extrema relevância ressaltar, elogiar e parabenizar a parceria montada entre o programa histórico de difusão da Cinemateca Brasileira, junto à Cinelimite. Parceria tal que me permitiu o contato pela primeira vez com os filmes de Helena Solberg, a partir da Programação Mestras do Cinema Documental Brasileiro. E que irá permitir o contato de tantas outras pessoas a outras obras que não possuíam até então cópias em alta resolução, ou obras inéditas de acervos pessoais.
Referência Bibliográfica e Filmografia
A ENTREVISTA. Direção de Helena Solberg. Produção de Helena Solberg. Rio de Janeiro, 1967.
DAS CINZAS… NICARÁGUA, HOJE. Direção de Helena Solberg. Produzido por PBS e International Woman’s Film Project. Distribuído por Radiante Filmes. Nova York, 1982.
MEIO-DIA. Direção de Helena Solberg. Produção de Helena Solberg. Rio de Janeiro, 1970.
TAVARES, Mariana Ribeiro da Silva. Helena Solberg: Trajetória de uma Documentarista Brasileira. 2011. Tese (Doutorado). Escola de Belas Artes - Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.