Lessons of Darkness (1992): “Um dos documentários mais cabeças do Herzog”

cinema
Autor

Guilherme Giusti

Data de Publicação

16 de outubro de 2022

Quem imaginou que milhões e milhões de anos depois, após serem extintos, os dinossauros voltariam para nos assombrar? Lessons of Darkness é sobre a lição nos dada pelo conflito natural que levou à extinção dos dinossauros, reconfigurado e atualizado para nossa atualidade social.

Lessons of Darkness (1992) é um documentário dirigido por Werner Herzog, sobre a crise instaurada nos campos de petróleo do Kuwait, durante a Guerra do Golfo. Conforme os iraquianos recuavam, acendiam as chamas nos poços de petróleo. Restando ao documentário retratar esses incêndios e sua extinção.

Por meio de uma falta de caracterização, de uma narração que em momento algum implica temporalidade, espacialidade geográfica e por meio de uma câmera que tenta fugir de revelar onde está; Herzog retira completamente os resquícios de tempo e espaço. Esta proposta se dá na tentativa de construção de uma nova realidade cinematográfica, pós-apocalíptica, que não se passa em lugar nenhum da Terra, ou até, se passa em outro planeta. Sendo que esta tese funciona melhor 30 anos depois, uma vez que muitos, como eu, podem nem saber do que historicamente se trata. Mas na época se fazendo clara a contextualização histórica e geográfica, por conta da saturação que essas imagens tiveram na mídia.

Esse ambiente aqui é construído em uma dualidade. Representado visualmente pelo branco do deserto e o preto do petróleo — este que, da mesma forma que representa vida, também representa morte. Poderíamos analisar os planos de abandono do deserto, da imensidão seca, como uma falta de vida; em contraste com toda a vida, o potencial de vidas que aquele petróleo historicamente tem a apresentar; mas que novamente é recomposto em uma nova matéria, por meio de sua combustão e assim lançado à atmosfera em forma de morte — uma vez que contribui à morte do planeta.

Com um pouco mais de atenção, notar-se-ia que a imagem de aparatos mecânicos contidos no mesmo plano que petróleo, em chamas — que aqui se auto perpetua em troca com o oxigênio do ar — nos traz um delta de tempo muito grande, de milhões de anos, para a imagem, uma vez que petróleo é matéria antiga e a máquina, construção humana recente. O que dá um peso maior tanto aos planos quanto ao filme. E pensando brevemente em Deleuze, não posso deixar de pensar no potencial de movimento que está contido dentro dessas imagens. Uma vez que, além de tudo, petróleo é utilizado para fazer combustível. O combustível que move a câmera através do deserto, que move o maquinário — que ali no caso, ironicamente o apaga e contém —, e por meio do fogo, move o enquadramento, permite o movimento à câmera, não mais fixa.

E então as chamas, o deserto em chamas, as centenas de poços de petróleo em chamas representam uma degradação muito brusca, tanto na qualidade de vida pontual, das pessoas que trabalharam para apagá-las e estancar os sangramentos; quanto para as pessoas que vivem na região e temporariamente consumiram um ar extremamente poluído; quanto, em última instância, todos os seres vivos do planeta, uma vez que é fato a quantidade de carbono que foi lançado na atmosfera.

Herzog poderia ter parado aí em sua construção de um novo mundo, distante do nosso. Mas não, ele vai além ao meu ver. Ao trazer uma mulher com traumas psicológicos da guerra, que teve sua capacidade de se expressar por meio da fala deteriorada. E ele representa ela como se fosse de um ambiente desconhecido por nós, no sentido de não podermos interpretá-la. Esta primeira de duas entrevistas nos é mostrada em seguida da apresentação de uma série de equipamentos de tortura, o que nos leva ao entendimento de que nesse mundo representado há uma falta de humanização tanto da guerra quanto causada pela guerra.

A outra entrevistada foi igualmente torturada — aqui não se diz por qual exército —, mas quem sofreu mais foi seu filho pequeno, que anunciadamente desistiu de falar, de aprender mais da fala, por conta do trauma gerado. E, em primeira instância, se fossemos analisar, os conflitos humanos se dão primitivamente pela agressão física, com o desenvolvimento da comunicação verbal que se ameniza e passa a se tornar agressão psicológica-verbal. A representação do que a guerra gerou na criança, forçando-a a cessar a comunicação verbal, demonstra uma forte desumanização causada pela mesma.

Assim, quando vemos a imagem do petróleo acima da superfície, temos a pura representação da retirada de vida da Terra, da desumanização, do desgaste do meio ambiente. Como Herzog diz: “o petróleo é traiçoeiro por estar refletindo o céu; estar se disfarçando de água”. Assim, finge ser um oásis de vida, uma vez que em um deserto, água é salvação, esperança. Enquanto traz consigo o elemento que representa a vida em sua composição e a morte em sua deterioração, o carbono. Que aqui é transformado em monóxido de carbono após a queima, deteriorando ainda mais o ecossistema. Sendo aqui o petróleo representação de toda a destruição e desumanização causada pela guerra.

Sendo assim, a partir do momento que os bombeiros — que vieram apagar e conter as chamas e o vazamento — reacendem dois vazamentos de petróleo, segue-se um tênue fio que liga eles ao todo do imperialismo. Se, de um lado, os Estados Unidos, um pouco antes da Guerra do Golfo, apoiavam o Iraque ante o Irã, após a invasão do Kuwait por parte do Iraque, o Irã perde apoio dos EUA, que em uma coalizão passa a defender o Kuwait, assim abrindo o precedente de o Iraque estar utilizando do aparato militar apoiado pelo governo dos EUA para atacar o Kuwait. Sendo posteriormente contratados bombeiros americanos (nota-se pela sua língua/fala) para apagar e conter o fogo. O que repete o famoso precedente de os Estados Unidos venderem armas para os inimigos, só para poder lucrar em cima das mesmas. Neste caso, permitindo o inimigo botar fogo, causar destruição no campo de petróleo, para então lucrar 1,5 bilhões de dólares, indo controlar o mesmo.

Em uma última nota, falar de som. Se o som direto surge no cinema como forma de trazer mais senso do real à imagem, a ausência de uma paisagem sonora, substituída aqui por uma música — por assim dizer — majestosa, é justificada ao considerarmos a proposta de Herzog, de não se passar necessariamente na Terra — ainda que para nós humanos, seja implícito. Assim limitando menos ainda o espaço-temporal da imagem.

*aqui se reconhece que, apesar do petróleo ser constituído da decomposição de seres vivos, estes datam ainda mais antigos do que os dinossauros. mas… dinossauros causam um choque maior