IA - Os perigos do hiper-realismo imagético

Ou: como a geração de imagens realistas por IA, ameaça a crença no factual da imagem-técnica e põe em xeque o fotojornalismo e a democracia

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Autor

Guilherme Giusti

Data de Publicação

12 de junho de 2025

Um dia desses vi uma publicação que me deixou bem pensativo. Imagina que um político posta uma imagem gerada por IA para fazer uma crítica à algo real. Pode parecer besta, mas é bem representativo do que será nosso futuro.

Existem algumas camadas e diferentes pontos de vista a serem analisados. Mas como bom fotógrafo vou começar reforçando algo que vários artistas já falaram sobre a relação do fazer arte com IAs gerativas.

A possível imagem de referência inicial, ainda que não pareça ter sido tirada por um Fotojornalista, que trabalha com isso e ganha comissão com a publicação de suas fotografias, poderia muito bem ter sido. A crítica aqui não vai a quem postou, mas a todos jornais que utilizaram e utilizam imagens de IA para tratar de fatos reais. Proponho aqui que consideremos por um momento o impacto que a escolha de uma imagem gerada por IA em vez de uma imagem de um fotógrafo tem.

Para o fotógrafo, tem-se uma diminuição do reconhecimento, das atribuições (como fonte) e das comissões - e com isso só piorando, pode levar até à uma crise profissional e existencial. Para o jornal? “Pô muito fácil, pra que pagar? Joga lá na IA a imagem que o outro jornal já pagou, e usa essa daí”. Mas e a atribuição? Bem, do ponto de vista da empresa, se você gerou uma imagem usando uma IA, não há dono. Do ponto de vista legal, boa sorte para o fotógrafo provar que a imagem de IA é uma obra derivada de sua fotografia e merece atribuição. A IA alucina não?.

Mas… tá, e para o público, quem consome e hoje em dia também faz essas imagens? Bem, esse é o segundo ponto a ser analisado, mas antes vale um breve aprofundamento na história da informação, do jornalismo e das imagens técnicas.

A arte e o simbolismo existem desde que podemos ser chamados de humanos, a informação é um pouco mais complexa, depende de qual área de estudo você perguntar, mas para a área de comunicação existe desde a criação das primeiras formas de linguagem, mas tendo ganho mais força a partir da invenção da escrita. A notícia ou o jornalismo, porém, só tomaram um grande público com a criação da Prensa de Gutenberg no século XV, quando surgiu a possibilidade de reprodução em massa do jornal. E pulando mais um pouco na história, essa reprodutibilidade nos levou ao que Vilém Flusser chama de Imagem Técnica - o registro do real a partir de um sensor fotossensível - e o que Walter Benjamin chama de Reprodutibilidade Técnica - em termos simples, a possibilidade de se reproduzir em massa qualquer símbolo/arte/imagem.

Tá, por mais breve que tenha sido, porque é importante essa contextualização? Até o primeiro registro fotográfico em 1826 (olha só, quase 200 anos), a única forma de termos absoluta certeza de um fato, era observando-o diretamente - de resto, nos restava a confiança em quem nos contava - ou retratava. O que a fotografia - o registro visual - e posteriormente o registro sonoro trazem, é a possibilidade de fixarmos um fato ou um acontecimento dado no plano real, no plano do virtual. A criação do cinema, o registro de imagem-movimento com som, traz ainda um outro patamar de realismo que não se tratará nesse texto. Mas o ponto sendo, isso trouxe uma mudança brusca na nossa relação com a arte - o que para Benjamin, com sua falta de unicidade, causa a perda de sua aura - e junto com diversas outras questões, na nossa relação de convivência e troca como sociedade, assim como criou-se uma crença na imagem.

A imagem técnica nunca foi tão reproduzida e compartilhada, como nesses últimos 10 anos, isso suscita uma relação de dependência, mas também de confiança em sua factualidade. Quando se vê uma foto, um vídeo, ou ouve-se um áudio gravado, pode até se duvidar de que seja “armação” - ou ficção, uma realidade paralela como no cinema -, mas nunca questionamos se é real - se de fato é uma representação dada no plano real (ainda que de forma fictícia) - isso tomamos como dado. Não só como público, mas como prova de uma notícia - fotojornalismo -, como prova de um crime - na tarefa de perícia e no tribunal - assim como na política, como forma de denúncia. Essa crença foi inabalável durante um período de quase 200 anos.

O que surge então nos últimos anos, com a geração de imagens a partir de um texto ou uma referência, é um precedente de chegarmos em tamanho realismo com essas imagens, que não saberemos mais distinguir o que é IA, o que é real. Nos primeiros anos disso, foi engraçado rir das imagens mal geradas, mas conforme os modelos de geração melhoraram, já estamos começando a ver o impacto que isso pode ter, principalmente no que tange fake news.

Do ponto de vista histórico, cultural e artístico, é natural que uma hora a imagem técnica pudesse ser substituída por uma outra forma de arte. O que aponto aqui, é que iremos retroceder à um mundo novamente pautado no simulacro e não mais no real. Mas com uma grande diferença. Os novos simulacros, são tão reais quanto o real, não se tem um sentimento de adoração, como se tinha no renascimento, o que se tem é uma ausência de separação entre o simulacro e o real, ou, um hiper realismo, onde o simulacro se tornará - em crença ao menos - mais real que o real.

Mas perde-se também a democratização e experimentação da arte. Explico. As IAs de difusão, não tem capacidade de criar nada do zero, elas são treinadas com materiais que já foram produzidos e que estão disponíveis no mundo, para então a partir de um modelo de predição, modelos estatísticos, formar uma imagem, ou uma resposta a qualquer questão e meio multimodal qual ela fora treinada. Mas suas respostas já estão diretamente limitadas ao seu dataset de treinamento, não há nada a se descobrir - não há para que brincar com as possibilidades do aparelho - tudo está lá, dado.

E do ponto de vista da democratização, hoje esses modelos possuẽm outras normas e orientações - limitações - que são definidas por poucas empresas - visto também que o custo de criar e treinar um modelo desses, para chegar nesse mesmo nível é quase proibitivo. O controle volta a ser centralizado não mão daqueles que tem os meios. E quem controla os meios, controla a informação, controla que imagens, o que você pode ou não gerar. Basta ver o Elon Musk, que em sua sede de poder, quis, pagou e criou uma IA. Acha exagero? Pergunta para a IA da Deepseek - empresa chinesa - se ela acha que Taiwan é uma ilha autônoma?

Não quero ser pessimista ou apocalíptico - o que eu sou, no termo de Umberto Eco -, mas o que estamos vendo hoje, é um sobre-fascínio de que a IA vai resolver todos nossos problemas. De fato é mais fácil pedir para uma IA gerar uma foto a partir de outras, do que falar com um fotógrafo, comprar os direitos de usar a foto, etc. Esse é um exemplo, mas é o sentimento geral que temos hoje - de quem quer usar e incentiva isso, mas de quem usa também.

Pode parecer uma trend boba, podemos eventualmente cansar disso, voltar a incentivar a imagem técnica e colocar a IA em desuso - como pode ser que a tese da Meta, de um mundo virtual vença. E como tudo nos dias de hoje, a complexidade para se pensar no que será o futuro disso, é tamanha, que exigiria possivelmente um mestrado inteiro só divagando sobre isso, que as possibilidades são várias.

O que sabemos hoje, é que nunca foi tão necessário um letramento, uma crítica imagética pessoal. Se a crise de educação no Brasil é um projeto político - o que é -, a falta de regulação e incentivos para uma crítica pessoal que saiba separar o nosso mundo real, do mundo virtual - o mundo dos simulacros -, também o é. Quem se beneficia com o uso generalizado da IA, tanto como forma de pesquisa, como forma de escrita, de geração de imagens, etc, é quem mais quer que essa crítica se esvaia. Ontem foi um político de esquerda, fazendo uma crítica séria e real, usando uma imagem bem similar ao acontecimento de fato. Mas amanhã a história pode ser outra, e boa sorte em tentar desmentir a crença em uma imagem que parece vinda do real.

Mas é muito simples só dizer isso. O Brasil é um país em que a cultura cinematográfica já não foi tão instaurada como na França - onde aprende-se cinema, a criticar uma imagem técnica, ainda na escola -, o culto da crítica à imagem técnica no Brasil, está nichada em certas bolhas, e no geral a crítica pessoal em relação à elas é baixa. Os projetos políticos que espalham fake news, se aproveitam disso. E se antes da IA muitas pessoas já caiam nessas fake news, imagina agora quando se tem vídeo, foto e áudio comprovando o falso fato.

A IA pode ser engraçadinha, esperta, e ter muitas utilidades de fato que podem facilitar nossas vidas. Mas temos que ter cuidado. Utilizamos isso, sem pensar no impacto psicológico, social, político e cultural que isso vai e pode ter. Não estou dizendo não usem, não estou condenando quem usou, acho que é importante aprender a usar, pois gostando ou não estará no nosso futuro. Mas todos temos que estar cientes do que estamos acordando ao utilizar algo assim, é isso que tentei elucidar.