Ensaio Climático-Existencial: breve olhar para O Diabo Provavelmente
A primeira vez que entrei em contato com a sensação de um desespero existencial foi assistindo a um vídeo do Ciência Todo Dia, tratando da Morte Térmica do Universo. Vamos todos morrer um dia, é inevitável para um ateu como eu pensar nisso. Porém, estar ciente disso muitas vezes é se angustiar com a morte, podendo-se até perder o sentido na vida.
Nesse primeiro caso, o tratamento da morte é trazido de uma forma individualizada — não vamos morrer todos de uma vez. Porém, existe um outro caso mais angustiante que o primeiro: o da possibilidade de nossa extinção como espécie, ou do “fim do mundo”. Apesar de muitos argumentos sem base científica terem sido utilizados ao longo dos anos para espalhar o medo de tal possibilidade, nunca estivemos mais próximos de tal fato, e somos os principais responsáveis por isso, pela crise climática.
Com certeza é muito angustiante saber que estamos acelerando nossa destruição e que nada podemos fazer. Não necessariamente eu ou você, leitor, somos culpados inteiramente por isso. Mas de um ponto de vista existencial, nós, como humanidade praticante do capitalismo, advinda das revoluções industriais, temos culpa disso. E assistir a esse quadro sintomático piorando anualmente, com pouca reação popular e poucas ações de combate efetivas, pode levar à perda da “fé na humanidade” ou a uma crise existencial, de nossa existência como humanos.

Essa sensação de inércia ante a destruição causada pelo capitalismo em todos os âmbitos não vem de agora. Ainda em 1977, o diretor francês Robert Bresson faz O Diabo Provavelmente, um filme político onde constrói uma narrativa ativista através de seu protagonista Charles (Antoine Monnier), que é um jovem adulto que perde a vontade de viver em meio a uma sociedade condenada pelo capitalismo destruidor e opressor, e que decide levar as coisas ao extremo.
Através de uma busca do realismo, a partir de imagens documentais e locações/cenários reais, o diretor consegue argumentar ser uma crise existencial que se passa “nos dias de hoje”, na então França da década de 1970. Não-atores interpretam seus personagens, e um paralelo pode ser feito com os não-atores de Rossellini: não sabemos onde começam e terminam suas atuações — sendo que, em sua maioria, não voltaram a atuar em filmes depois de O Diabo Provavelmente.
A crise político-existencial de Charles pode ser vista como uma rejeição total de um jogo regido pelo capital e pela força opressora do Estado. Para ele, atuar de forma contrária é inevitavelmente compactuar com as regras do jogo, se inserir nas normas criadas. Não existe fuga ou liberdade, se não na omissão, na morte — ele só não se suicida com as próprias mãos por odiar a vida e a morte de maneira igual.
A crise que nos interessa aqui neste ensaio, porém, é apenas climática. E assim como Bresson demonstra em seu filme — através de imagens documentais de destruição/poluição do meio ambiente —, uma coisa está ligada à outra. Não se pode falar em crise climática sem situar o contexto político-histórico-cultural que continua perpetuando o mesmo sistema que o diretor francês denunciava há quase 50 anos. Far-se-á uma breve contextualização.
A crise climática comprovadamente advém das revoluções industriais, da globalização e do sistema capitalista-consumista. O ano de 2023 foi marcado pelo aumento de 1,5°C na temperatura, sendo considerado o ano mais quente da história humana. Cientistas têm deixado cada vez mais claro que, se não fizermos nada, estaremos “fodidos”: uma desigualdade climática afetará severamente partes do globo que nada têm a ver com as altas emissões, podendo não só acabar com cidades, comunidades, residências e vidas humanas, mas igualmente destruir e alterar drasticamente o habitat de muitas espécies até 2100.
Proponho então que, desse ponto de vista, o desespero existencial que Charles sente possa ser relacionado com os dias de hoje, através do reconhecimento de que os dois principais países emissores de gases de efeito estufa (GEE) anuais (China com 30%, Estados Unidos com 11%) não só se encontram em sistemas político-econômicos diferentes, como são os dois países mais economicamente influentes nos dias atuais. E se estabelecermos que ações individuais têm pouco efeito sobre a crise climática, passa-se a depender de uma política coletiva global do capital e intergovernamental. Ou seja, qualquer ação efetivamente passa a depender da aprovação e da ação dos países que detêm o poder de veto em órgãos intergovernamentais como a ONU.
Porém, se propõe um distanciamento do dilema do protagonista, da rejeição total de brincar dentro do jogo: pois, para mudá-lo, é necessário o (re)conhecer, tatear, jogar. É inevitável afirmar que ambos os lados, dos sistemas político-econômicos contrários de China e EUA, seriam igualmente prejudiciais a longo prazo. Mas não são todos os países que estão apenas se importando com sua soberania de Estado e seu direito de desenvolver-se economicamente. Basta observar que a União Europeia, como um bloco, conseguiu reduzir suas emissões de GEE nas últimas três décadas, em 25% — prometendo zerar suas emissões até 2050. E igualmente notar que, hoje em dia, os cientistas sabem o que precisa ser feito, apresentando uma saída. Ainda que, como demonstrado na COP 28 (Conferência da ONU sobre o Clima, de 2023), países mais influentes (na economia de combustíveis fósseis) não estejam interessados em apoiar tais propostas — demonstrando ser factível, porém quase impossível, frear os combustíveis fósseis. É como se uma nova possibilidade do jogo existisse, porém com um controle parental bem restrito.

Resta, por fim, a angústia de ter que reconhecer o que Charles não quis aceitar: vivemos em um mundo ruim, derrubamos as árvores, queimamos os combustíveis fósseis e perpetuamos nesse sistema a nossa existência. Porém, amamos tanto que sofremos por isso, vivendo em meio a uma esperança de mudança — ainda que em uma crise de existência humana, da impossibilidade de ação. Pois, como disse Carlos Drummond:
Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.
Sabemos as consequências de não fazer nada, e temos boa parte da solução, porém a inação política faz duvidar que não sofreremos todos futuramente as consequências disso. Desesperançoso fica quem sabe que pode chegar vivo ao fim do século, sofrendo as consequências das inações daqueles políticos que vieram a falecer bem antes.