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<title>guigiusti</title>
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<description>Site pessoal de Guilherme Giusti</description>
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<lastBuildDate>Sun, 14 Jan 2024 00:00:00 GMT</lastBuildDate>
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  <title>Ensaio Climático-Existencial: breve olhar para O Diabo Provavelmente</title>
  <dc:creator>Guilherme Giusti</dc:creator>
  <link>https://guigiusti.com/posts/ensaio-climatico-existencial/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>A primeira vez que entrei em contato com a sensação de um desespero existencial foi assistindo a um vídeo do <em>Ciência Todo Dia</em>, tratando da Morte Térmica do Universo. Vamos todos morrer um dia, é inevitável para um ateu como eu pensar nisso. Porém, estar ciente disso muitas vezes é se angustiar com a morte, podendo-se até perder o sentido na vida.</p>
<p>Nesse primeiro caso, o tratamento da morte é trazido de uma forma individualizada — não vamos morrer todos de uma vez. Porém, existe um outro caso mais angustiante que o primeiro: o da possibilidade de nossa extinção como espécie, ou do “fim do mundo”. Apesar de muitos argumentos sem base científica terem sido utilizados ao longo dos anos para espalhar o medo de tal possibilidade, nunca estivemos mais próximos de tal fato, e somos os principais responsáveis por isso, pela crise climática.</p>
<p>Com certeza é muito angustiante saber que estamos acelerando nossa destruição e que nada podemos fazer. Não necessariamente eu ou você, leitor, somos culpados inteiramente por isso. Mas de um ponto de vista existencial, nós, como humanidade praticante do capitalismo, advinda das revoluções industriais, temos culpa disso. E assistir a esse quadro sintomático piorando anualmente, com pouca reação popular e poucas ações de combate efetivas, pode levar à perda da “fé na humanidade” ou a uma crise existencial, de nossa existência como humanos.</p>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/ensaio-climatico-existencial/diabo_provavelmente.webp" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 1 - Frame do filme <em>O Diabo Provavelmente</em> (1977)</figcaption>
</figure>
</div>
<p>Essa sensação de inércia ante a destruição causada pelo capitalismo em todos os âmbitos não vem de agora. Ainda em 1977, o diretor francês Robert Bresson faz <em>O Diabo Provavelmente</em>, um filme político onde constrói uma narrativa ativista através de seu protagonista Charles (Antoine Monnier), que é um jovem adulto que perde a vontade de viver em meio a uma sociedade condenada pelo capitalismo destruidor e opressor, e que decide levar as coisas ao extremo.</p>
<p>Através de uma busca do realismo, a partir de imagens documentais e locações/cenários reais, o diretor consegue argumentar ser uma crise existencial que se passa “nos dias de hoje”, na então França da década de 1970. Não-atores interpretam seus personagens, e um paralelo pode ser feito com os não-atores de Rossellini: não sabemos onde começam e terminam suas atuações — sendo que, em sua maioria, não voltaram a atuar em filmes depois de <em>O Diabo Provavelmente</em>.</p>
<p>A crise político-existencial de Charles pode ser vista como uma rejeição total de um jogo regido pelo capital e pela força opressora do Estado. Para ele, atuar de forma contrária é inevitavelmente compactuar com as regras do jogo, se inserir nas normas criadas. Não existe fuga ou liberdade, se não na omissão, na morte — ele só não se suicida com as próprias mãos por odiar a vida e a morte de maneira igual.</p>
<p>A crise que nos interessa aqui neste ensaio, porém, é apenas climática. E assim como Bresson demonstra em seu filme — através de imagens documentais de destruição/poluição do meio ambiente —, uma coisa está ligada à outra. Não se pode falar em crise climática sem situar o contexto político-histórico-cultural que continua perpetuando o mesmo sistema que o diretor francês denunciava há quase 50 anos. Far-se-á uma breve contextualização.</p>
<p>A crise climática comprovadamente advém das revoluções industriais, da globalização e do sistema capitalista-consumista. O ano de 2023 foi marcado pelo aumento de 1,5°C na temperatura, sendo considerado o ano mais quente da história humana. Cientistas têm deixado cada vez mais claro que, se não fizermos nada, estaremos “fodidos”: uma desigualdade climática afetará severamente partes do globo que nada têm a ver com as altas emissões, podendo não só acabar com cidades, comunidades, residências e vidas humanas, mas igualmente destruir e alterar drasticamente o habitat de muitas espécies até 2100.</p>
<p>Proponho então que, desse ponto de vista, o desespero existencial que Charles sente possa ser relacionado com os dias de hoje, através do reconhecimento de que os dois principais países emissores de gases de efeito estufa (GEE) anuais (China com 30%, Estados Unidos com 11%) não só se encontram em sistemas político-econômicos diferentes, como são os dois países mais economicamente influentes nos dias atuais. E se estabelecermos que ações individuais têm pouco efeito sobre a crise climática, passa-se a depender de uma política coletiva global do capital e intergovernamental. Ou seja, qualquer ação efetivamente passa a depender da aprovação e da ação dos países que detêm o poder de veto em órgãos intergovernamentais como a ONU.</p>
<p>Porém, se propõe um distanciamento do dilema do protagonista, da rejeição total de brincar dentro do jogo: pois, para mudá-lo, é necessário o (re)conhecer, tatear, jogar. É inevitável afirmar que ambos os lados, dos sistemas político-econômicos contrários de China e EUA, seriam igualmente prejudiciais a longo prazo. Mas não são todos os países que estão apenas se importando com sua soberania de Estado e seu direito de desenvolver-se economicamente. Basta observar que a União Europeia, como um bloco, conseguiu reduzir suas emissões de GEE nas últimas três décadas, em 25% — prometendo zerar suas emissões até 2050. E igualmente notar que, hoje em dia, os cientistas sabem o que precisa ser feito, apresentando uma saída. Ainda que, como demonstrado na COP 28 (Conferência da ONU sobre o Clima, de 2023), países mais influentes (na economia de combustíveis fósseis) não estejam interessados em apoiar tais propostas — demonstrando ser factível, porém quase impossível, frear os combustíveis fósseis. É como se uma nova possibilidade do jogo existisse, porém com um controle parental bem restrito.</p>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/ensaio-climatico-existencial/diabo_provavelmente_02.webp" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 2 - Frame do filme <em>O Diabo Provavelmente</em> (1977)</figcaption>
</figure>
</div>
<p>Resta, por fim, a angústia de ter que reconhecer o que Charles não quis aceitar: vivemos em um mundo ruim, derrubamos as árvores, queimamos os combustíveis fósseis e perpetuamos nesse sistema a nossa existência. Porém, amamos tanto que sofremos por isso, vivendo em meio a uma esperança de mudança — ainda que em uma crise de existência humana, da impossibilidade de ação. Pois, como disse Carlos Drummond:</p>
<blockquote class="blockquote">
<p>Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.</p>
</blockquote>
<p>Sabemos as consequências de não fazer nada, e temos boa parte da solução, porém a inação política faz duvidar que não sofreremos todos futuramente as consequências disso. Desesperançoso fica quem sabe que pode chegar vivo ao fim do século, sofrendo as consequências das inações daqueles políticos que vieram a falecer bem antes.</p>



 ]]></description>
  <category>cinema</category>
  <guid>https://guigiusti.com/posts/ensaio-climatico-existencial/</guid>
  <pubDate>Sun, 14 Jan 2024 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
  <title>Mostra Cinelimite: Helena Solberg - A necessidade de um programa de Difusão Cinematográfica</title>
  <dc:creator>Guilherme Giusti</dc:creator>
  <link>https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Em vista da Mostra Cinelimite, que aconteceu na Cinemateca Brasileira entre 19 e 28 de maio, trazendo em seu programa <em>Mestras do Cinema Documental Brasileiro</em>, filmes da diretora Helena Solberg, tratarei aqui da minha experiência de contato com sua obra e dos três filmes exibidos com nova digitalização: <em>A Entrevista</em> (1966), <em>Meio-Dia</em> (1969) e <em>Das Cinzas… Nicarágua Hoje</em> (1982).</p>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/SOLBERG_FIGURA_1.jpg" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 1 - Cartaz do Programa Mestras do Cinema Documental Brasileiro, da Mostra “Cinelimite”. Fonte: Twitter, <span class="citation" data-cites="Cinelimite">@Cinelimite</span></figcaption>
</figure>
</div>
<p>O que sempre fez do programa de difusão da Cinemateca um destaque entre os cinemas de São Paulo foi seu contínuo papel de formação de público crítico e democratização tanto do acesso de público aos filmes quanto vice-versa. E não se poderia esperar outra coisa de uma mostra que visa apresentar digitalizações atualizadas de filmes historicamente importantes para o Cinema Brasileiro, mas também digitalizações de filmes inéditos do circuito de super 8 brasileiro.</p>
<p>Porém, ainda assim, não conhecendo Helena Solberg, ao entrar em contato pela primeira vez com sua filmografia, fiquei surpreso de nunca ter ouvido, ao longo dos últimos três anos na graduação de cinema, falarem dela — seja em conversa com cinéfilos, com professores em sala de aula ou em leituras próprias sobre Cinema Novo.</p>
<p>Mas por que deveria eu? Bem, Helena Solberg inicia seu cinema em meio à segunda geração de cinema novistas — com Cacá Diegues e Arnaldo Jabor na PUC-RJ —, tendo contato direto com os expoentes da época, como Rogério Sganzerla, que monta o primeiro documentário da diretora. Em seu período nos Estados Unidos, faz, dentro de sua <em>Trilogia da Mulher</em>, em 1974, um documentário que revoluciona o cinema documental feminista do país, <em>The Emerging Woman</em>, que faz “um mergulho horizontal num assunto extenso: 170 anos de história do movimento feminista no país” (TAVARES, 2011, p.&nbsp;27). A partir da repercussão maestral do filme, então cria o <em>International Woman’s Film Project</em>, que produziria seus outros dois documentários da mesma trilogia, porém agora na América Latina. Não obstante, Helena então entra em uma fase de análises da relação imperialista dos Estados Unidos com a América Latina, sendo nessa fase, com apoio financeiro da PBS, que produz, entre outros documentários, o premiado com um Emmy, <em>From The Ashes: Nicaragua Today</em> (<em>Das Cinzas… Nicarágua Hoje</em>). Ao longo de toda sua carreira, a diretora faz 17 filmes, entre longa e curta-metragens, e entre documentários e ficções.</p>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/SOLBERG_FIGURA_2.webp" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 2 - Helena Solberg e Christine, do International Women’s Film Project, gravando <em>The Emerging Woman</em> (1974). Foto: Helena Solberg/Arquivo Pessoal</figcaption>
</figure>
</div>
<p>Eu poderia seguir descrevendo a filmografia da diretora, porém acho que já deixei clara sua relevância para o Cinema Feminista e Cinema Latino, além de explicar o porquê de minha surpresa de nunca ter entrado em contato com sua vasta e importante obra. Indico, porém, a leitura da tese de doutorado <em>Helena Solberg: trajetória de uma documentarista brasileira</em>, defendida por Mariana Tavares, com link disponível na bibliografia.</p>
<p>Seguindo. Visto tudo isso, proponho aqui que Helena Solberg talvez seja uma espécie de Alice Guy Blaché para o documentário moderno brasileiro. Explico: Alice é pouquíssimas vezes citada em livros que fazem panoramas da história do cinema. Mas, ao mesmo tempo, é uma das mais importantes cineastas do século XIX e dos primeiros 20 anos do século XX, havendo produzido estimados 1000 filmes. Helena, ao mesmo tempo, é poucas vezes citada dentro do panorama do Cinema Novo Brasileiro e do Cinema Documental Brasileiro, mas constitui uma obra única e pioneira para a história do documentário moderno brasileiro.</p>
<p>Esse quase apagamento (existem exceções) das duas cineastas nas bibliografias relativas tem o efeito de trazer à tona a misoginia enraizada tanto na história do mundo recente quanto dentro do próprio campo do cinema. Ao mesmo tempo, a revelação de suas obras serve de manifesto contrário; principalmente no caso de Solberg, que, em sua fase feminista, trabalha só com mulheres (com exceção de Mario Carneiro, fotógrafo brasileiro).</p>
<hr>
<section id="quanto-aos-filmes-da-mostra" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="quanto-aos-filmes-da-mostra"><strong>Quanto aos filmes da mostra</strong></h2>
<p>A obra da cineasta foi exibida em ordem cronológica, começando com <em>A Entrevista</em> (1966), passando por <em>Meio-Dia</em> (1970), e terminando com <em>Das Cinzas… Nicarágua Hoje</em> (1982). Aqui dedicarei maior análise ao primeiro.</p>
<hr>
<section id="a-entrevista-1966" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="a-entrevista-1966"><strong>A Entrevista (1966)</strong></h3>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/SOLBERG_FIGURA_3.jpg" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 3 - Cena do filme <em>A Entrevista</em> (1966)</figcaption>
</figure>
</div>
<p>O primeiro filme de Solberg traz uma análise da condição da mulher brasileira de classe média, se fazendo profundo por meio da extensa coleta de depoimentos, no total “setenta entrevistas com moças de 19 a 27 anos”. Fazendo por meio da dialética imagem e som, e de uma dialética de montagem, uma crítica às forças sociais conservadoras — como família, escola religiosa, às vezes Estado, etc. — que ensinam desde pequenas que as mulheres têm que se casar, têm que seguir uma certa forma de viver e cuidar de si; seguir uma cartilha conservadora que diz o que deveria entender como “ser mulher”. Esta crítica-denúncia será desenvolvida ao longo do filme, e explicitada pelas imagens que se opõem aos diálogos.</p>
<p>Analisando o início da obra, podemos notar a força cinematográfica que esse embate entre imagens e depoimentos — presentes no filme de Solberg — traz. No início temos então a denúncia de uma mulher à educação conservadora, anunciando que só com a experiência prática da vida conseguiu mudar da visão que lhe foi ensinada. Trazida em contraste com a imagem de uma jovem se arrumando — o que depois descobrimos se tratar de seu casamento. Passados os letreiros iniciais, segue com imagens de crianças e bonecas fabricadas, acompanhadas de uma voz de “bruxa”, que anuncia que irá fazer suas “profecias”, cortando a imagem para uma escola religiosa. Onde adentramos provavelmente no passado da diretora, constituindo de imagens de freiras-professoras, mas também de crianças vestidas de forma igual (com uniforme). E conforme as imagens se substituem, acompanhamos o crescimento delas, chegando até a fase jovem-adulta, onde ainda as vemos com vestimentas iguais. Criando assim uma crítica feminista por meio da relação entre as bonecas fabricadas e as garotas educadas por freiras na escola religiosa conservadora.</p>
<p>Como esta análise inicial busca demonstrar, o primeiro filme de Helena Solberg, montado por Rogério Sganzerla e fotografado por Mário Carneiro, então já anuncia a força e os temas que a autora tratará ao longo de sua filmografia. Tanto na questão do feminismo, da mulher, à qual dedicará alguns filmes, quanto na questão da força conservadora imperialista externa, denunciada por meio da escola que tem vínculos à Igreja, junto da crítica que finaliza o filme à ditadura militar brasileira — que possui forte apoio dos Estados Unidos. Nascendo em forma já na linguagem do Moderno, se diferenciando dos filmes do Cinema Novo, que tratavam de classe contrária à dos diretores, como demonstrado por Mariana Tavares:</p>
<blockquote class="blockquote">
<p>“A autonomia na escolha do tema – a condição da mulher de classe média, nos anos de 1960 – contraria a pauta cinemanovista que frequentemente elegia “a miséria de uma massa camponesa, sofredora e apática, não só do Nordeste brasileiro, como do campesinato latino-americano e do Terceiro Mundo em geral”, como referiu Jean-Claude Bernadet (2003, p.&nbsp;240).”</p>
</blockquote>
<p>Em uma breve nota, ver este filme restaurado e em tela grande foi uma experiência única e que permitiu todo o meu interesse seguinte em estudar e assistir mais da obra da diretora. Se este é seu primeiro filme, serve de anúncio para o que virá, uma obra consistente com força política-cultural-social e de relevada importância na história do Cinema Brasileiro, do Cinema Novo e do Cinema Latino-Americano.</p>
<hr>
</section>
<section id="meio-dia-1970" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="meio-dia-1970"><strong>Meio-Dia (1970)</strong></h3>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/SOLBERG_FIGURA_4.jpg" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 4 - Cena do filme <em>Meio-Dia</em> (1970)”</figcaption>
</figure>
</div>
<p>O segundo filme exibido acompanha inicialmente um jovem que se revolta contra a escola, e de uma certa forma contra funcionários públicos que limpavam com enxada a grama de uma praça pública. Sendo este jovem não aceito em um jogo de futebol com semelhantes de sua idade, então desistindo e indo ficar sozinho na beira de um lago, onde decide jogar seus livros. Este plano serve de corte para uma sala de aula, onde estudantes se rebelam contra a instituição de ensino e seu professor, matando-o.</p>
<p><em>Meio-Dia</em> bebe da crítica instaurada em Maio de 68 na França. Sendo uma ficção que se inspira “em <em>Zéro de Conduite</em> (<em>Zero de Conduta</em>, 1933), de Jean Vigo” (TAVARES, 2011, p.&nbsp;43). Trazendo também um pouco da força que <em>Les Quatre Cents Coups</em> (1959) dá às crianças subjugadas pela sociedade — sendo o primeiro longa de Truffaut, e um dos primeiros da Nouvelle Vague Francesa.</p>
<p>Sendo o curta um manifesto contra o sistema, contra as regras e a censura. Servindo igualmente de crítica à ditadura militar recém-instituída no Brasil. Trazendo também uma música vetada pelo governo, a música <em>É Proibido Proibir</em> de Caetano Veloso e Os Mutantes. Deixo uma breve confissão aqui: entre os três filmes do programa, foi minha experiência de espectador preferida, pela força de subversão que traz.</p>
<hr>
</section>
<section id="nicarágua-hoje-1982" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="nicarágua-hoje-1982"><strong>Nicarágua Hoje (1982)</strong></h3>
<div class="quarto-figure quarto-figure-center">
<figure class="figure">
<p><img src="https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/SOLBERG_FIGURA_5.webp" class="img-fluid figure-img"></p>
<figcaption>Figura 5 - Cartaz da CBS em inglês para o filme <em>Das Cinzas… Nicarágua Hoje</em> (1982). Fonte: Cinemateca Brasileira.</figcaption>
</figure>
</div>
<p>Morando nos Estados Unidos já há 12 anos, a diretora então decide sair do tema da mulher e do feminismo, para tornar seu olhar aos conflitos político-sociais que ebuliam na América Latina. Sendo este o primeiro filme produzido da série, em parceria com a TV pública, PBS. Mas antes de falar do filme, necessitamos contextualizá-lo.</p>
<p>A Nicarágua desde a década de 1910 esteve sob influência do governo estadunidense, que tentava e sucedia — por meio de incursões armadas — colocar políticos-fantoches nos cargos de alta patente. Mas claro que tal incursão se precedeu de uma luta armada liderada principalmente por Augusto Cesar Sandino. Este foi assassinado em 1934 pela Guarda Nacional recém-criada como instrumento militar para defender os interesses dos Estados Unidos no país, sob comando de Anastasio Somoza García. Sendo que a família Somoza passou a controlar o país em 1936, com apoio do país norte-americano.</p>
<p>Assim, inspirados na revolução cubana de 1959, a oposição nicaraguense cria em 1961 a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Movimento que irá ser resistência à ditadura Somoza. E que levará à sua derrocada em 1979, após perder apoio dos EUA.</p>
<p>Por meio de diversos recursos de documentário, Solberg então nos insere em um panorama do percurso da incursão e influência dos Estados Unidos na Nicarágua, nos apresentando e inserindo no contexto de conflito final entre a família Somoza e a FSLN, que se encerra com a fuga de Anastasio Somoza Debayle para Miami.</p>
<p>Utilizando o depoimento de uma família nicaraguense — os Chavarrías — para explicar como todo este conflito alterou a vida dos cidadãos e das famílias ao longo das décadas, algo que traz uma sensibilidade ao espectador. Mas indo além na inclusão de imagens de arquivo das invasões armadas dos militares norte-americanos. Junto de uma visita feita a um encontro paramilitar de nicaraguenses, em Miami, que decidiram treinar com armas de fogo, para voltar a seu país e defender os interesses dos Estados Unidos, da família Somoza. Entre diversos outros recursos utilizados.</p>
<p>Assim, nos demonstrando a pluralidade de recursos documentais, da visão documental que Solberg agora apresentava com distância das repressões e censuras da América Latina e do Brasil. Sendo que este documentário causou críticas nos Estados Unidos, por ser contra os interesses do país, sendo patrocinado e exibido em TV pública, ganhando até um Emmy — o prêmio deles de televisão. Sendo um documentário que abre a brecha para a produção seguinte de Solberg nas televisões norte-americanas.</p>
<hr>
</section>
</section>
<section id="a-parceria-da-cinemateca-brasileira-com-a-cinelimite" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="a-parceria-da-cinemateca-brasileira-com-a-cinelimite"><strong>A parceria da Cinemateca Brasileira com a Cinelimite</strong></h2>
<p>Como poderíamos olhar para o passado, conhecer e estudar nossa riquíssima história e cultura cinematográfica, se o registro da mesma estivesse em acesso restrito, deteriorado ou se inexistisse?</p>
<p>É esse princípio, da necessidade de preservação de uma memória cultural, de sua restauração, manutenção e conseguinte difusão, que permeia a criação e o funcionamento da Cinemateca Brasileira, e de tantas outras Cinematecas — como a do MAM no Rio, a de Curitiba, a Pernambucana, etc. Mas também de forma mais simples é o que gera a necessidade da criação de acervos e filmotecas, públicas ou privadas — sejam de instituições ou particulares.</p>
<p>Porém, se de um lado temos diversas entidades e pessoas em guarda de filmes em película, de outro temos pouco acesso à digitalização dos mesmos, o que muitas vezes restringe a quantidade de pessoas que podem assisti-los; principalmente quando falamos de filmes órfãos, experimentais, de origem pessoal.</p>
<p>E é nesse sentido, de tentar democratizar mais o acesso à digitalização desse material, que surgiu a Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros, da Cinelimite, “uma organização sem fins lucrativos dedicada à exibição, distribuição e digitalização (IDFB) do cinema brasileiro de repertório”.</p>
<p>Iniciativa esta, que já ajudou a levar a São Paulo, na ocasião da “46° Mostra”, o filme <em>A Rainha Diaba</em> (1973) restaurado. E que trouxe novamente, em parceria inédita com a Cinemateca Brasileira, a “Mostra Cinelimite”, que ocorreu entre 19 e 28 de maio, contendo mais de 40 filmes digitalizados pela IDFB, de filmes queer à animações, a documentários feministas, etc.</p>
<p>De igual modo, é ainda mais importante o programa “Digitalização Viajante”, feito em parceria com a ABPA, que busca democratizar a digitalização de filmes em Super 8 e em 8mm, por meio de um percurso de estados percorridos pela equipe da Cinelimite junto ao transporte de uma máquina de telecinagem, em prol de digitalizar filmes inéditos presentes principalmente em acervos pessoais dos diretores.</p>
<p>Se faço esse panorama, é porque vejo com extrema relevância ressaltar, elogiar e parabenizar a parceria montada entre o programa histórico de difusão da Cinemateca Brasileira, junto à Cinelimite. Parceria tal que me permitiu o contato pela primeira vez com os filmes de Helena Solberg, a partir da Programação <em>Mestras do Cinema Documental Brasileiro</em>. E que irá permitir o contato de tantas outras pessoas a outras obras que não possuíam até então cópias em alta resolução, ou obras inéditas de acervos pessoais.</p>
<hr>
</section>
<section id="referência-bibliográfica-e-filmografia" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="referência-bibliográfica-e-filmografia"><strong>Referência Bibliográfica e Filmografia</strong></h2>
<p><strong>A ENTREVISTA</strong>. Direção de Helena Solberg. Produção de Helena Solberg. Rio de Janeiro, 1967.</p>
<p><strong>DAS CINZAS… NICARÁGUA, HOJE</strong>. Direção de Helena Solberg. Produzido por PBS e International Woman’s Film Project. Distribuído por Radiante Filmes. Nova York, 1982.</p>
<p><strong>MEIO-DIA.</strong> Direção de Helena Solberg. Produção de Helena Solberg. Rio de Janeiro, 1970.</p>
<p>TAVARES, Mariana Ribeiro da Silva. <strong>Helena Solberg: Trajetória de uma Documentarista Brasileira. 2011.</strong> Tese (Doutorado). Escola de Belas Artes - Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.</p>


</section>

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  <category>cinema</category>
  <guid>https://guigiusti.com/posts/mostra-cinelimite-solberg/</guid>
  <pubDate>Sat, 27 May 2023 00:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>Lessons of Darkness (1992): “Um dos documentários mais cabeças do Herzog”</title>
  <dc:creator>Guilherme Giusti</dc:creator>
  <link>https://guigiusti.com/posts/lessons-of-darkness/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Quem imaginou que milhões e milhões de anos depois, após serem extintos, os dinossauros voltariam para nos assombrar? <em>Lessons of Darkness</em> é sobre a lição nos dada pelo conflito natural que levou à extinção dos dinossauros, reconfigurado e atualizado para nossa atualidade social.</p>
<p><em>Lessons of Darkness</em> (1992) é um documentário dirigido por Werner Herzog, sobre a crise instaurada nos campos de petróleo do Kuwait, durante a Guerra do Golfo. Conforme os iraquianos recuavam, acendiam as chamas nos poços de petróleo. Restando ao documentário retratar esses incêndios e sua extinção.</p>
<p>Por meio de uma falta de caracterização, de uma narração que em momento algum implica temporalidade, espacialidade geográfica e por meio de uma câmera que tenta fugir de revelar onde está; Herzog retira completamente os resquícios de tempo e espaço. Esta proposta se dá na tentativa de construção de uma nova realidade cinematográfica, pós-apocalíptica, que não se passa em lugar nenhum da Terra, ou até, se passa em outro planeta. Sendo que esta tese funciona melhor 30 anos depois, uma vez que muitos, como eu, podem nem saber do que historicamente se trata. Mas na época se fazendo clara a contextualização histórica e geográfica, por conta da saturação que essas imagens tiveram na mídia.</p>
<p>Esse ambiente aqui é construído em uma dualidade. Representado visualmente pelo branco do deserto e o preto do petróleo — este que, da mesma forma que representa vida, também representa morte. Poderíamos analisar os planos de abandono do deserto, da imensidão seca, como uma falta de vida; em contraste com toda a vida, o potencial de vidas que aquele petróleo historicamente tem a apresentar; mas que novamente é recomposto em uma nova matéria, por meio de sua combustão e assim lançado à atmosfera em forma de morte — uma vez que contribui à morte do planeta.</p>
<p>Com um pouco mais de atenção, notar-se-ia que a imagem de aparatos mecânicos contidos no mesmo plano que petróleo, em chamas — que aqui se auto perpetua em troca com o oxigênio do ar — nos traz um delta de tempo muito grande, de milhões de anos, para a imagem, uma vez que petróleo é matéria antiga e a máquina, construção humana recente. O que dá um peso maior tanto aos planos quanto ao filme. E pensando brevemente em Deleuze, não posso deixar de pensar no potencial de movimento que está contido dentro dessas imagens. Uma vez que, além de tudo, petróleo é utilizado para fazer combustível. O combustível que move a câmera através do deserto, que move o maquinário — que ali no caso, ironicamente o apaga e contém —, e por meio do fogo, move o enquadramento, permite o movimento à câmera, não mais fixa.</p>
<p>E então as chamas, o deserto em chamas, as centenas de poços de petróleo em chamas representam uma degradação muito brusca, tanto na qualidade de vida pontual, das pessoas que trabalharam para apagá-las e estancar os sangramentos; quanto para as pessoas que vivem na região e temporariamente consumiram um ar extremamente poluído; quanto, em última instância, todos os seres vivos do planeta, uma vez que é fato a quantidade de carbono que foi lançado na atmosfera.</p>
<p>Herzog poderia ter parado aí em sua construção de um novo mundo, distante do nosso. Mas não, ele vai além ao meu ver. Ao trazer uma mulher com traumas psicológicos da guerra, que teve sua capacidade de se expressar por meio da fala deteriorada. E ele representa ela como se fosse de um ambiente desconhecido por nós, no sentido de não podermos interpretá-la. Esta primeira de duas entrevistas nos é mostrada em seguida da apresentação de uma série de equipamentos de tortura, o que nos leva ao entendimento de que nesse mundo representado há uma falta de humanização tanto da guerra quanto causada pela guerra.</p>
<p>A outra entrevistada foi igualmente torturada — aqui não se diz por qual exército —, mas quem sofreu mais foi seu filho pequeno, que anunciadamente desistiu de falar, de aprender mais da fala, por conta do trauma gerado. E, em primeira instância, se fossemos analisar, os conflitos humanos se dão primitivamente pela agressão física, com o desenvolvimento da comunicação verbal que se ameniza e passa a se tornar agressão psicológica-verbal. A representação do que a guerra gerou na criança, forçando-a a cessar a comunicação verbal, demonstra uma forte desumanização causada pela mesma.</p>
<p>Assim, quando vemos a imagem do petróleo acima da superfície, temos a pura representação da retirada de vida da Terra, da desumanização, do desgaste do meio ambiente. Como Herzog diz: “o petróleo é traiçoeiro por estar refletindo o céu; estar se disfarçando de água”. Assim, finge ser um oásis de vida, uma vez que em um deserto, água é salvação, esperança. Enquanto traz consigo o elemento que representa a vida em sua composição e a morte em sua deterioração, o carbono. Que aqui é transformado em monóxido de carbono após a queima, deteriorando ainda mais o ecossistema. Sendo aqui o petróleo representação de toda a destruição e desumanização causada pela guerra.</p>
<p>Sendo assim, a partir do momento que os bombeiros — que vieram apagar e conter as chamas e o vazamento — reacendem dois vazamentos de petróleo, segue-se um tênue fio que liga eles ao todo do imperialismo. Se, de um lado, os Estados Unidos, um pouco antes da Guerra do Golfo, apoiavam o Iraque ante o Irã, após a invasão do Kuwait por parte do Iraque, o Irã perde apoio dos EUA, que em uma coalizão passa a defender o Kuwait, assim abrindo o precedente de o Iraque estar utilizando do aparato militar apoiado pelo governo dos EUA para atacar o Kuwait. Sendo posteriormente contratados bombeiros americanos (nota-se pela sua língua/fala) para apagar e conter o fogo. O que repete o famoso precedente de os Estados Unidos venderem armas para os inimigos, só para poder lucrar em cima das mesmas. Neste caso, permitindo o inimigo botar fogo, causar destruição no campo de petróleo, para então lucrar 1,5 bilhões de dólares, indo controlar o mesmo.</p>
<p>Em uma última nota, falar de som. Se o som direto surge no cinema como forma de trazer mais senso do real à imagem, a ausência de uma paisagem sonora, substituída aqui por uma música — por assim dizer — majestosa, é justificada ao considerarmos a proposta de Herzog, de não se passar necessariamente na Terra — ainda que para nós humanos, seja implícito. Assim limitando menos ainda o espaço-temporal da imagem.</p>
<p>*aqui se reconhece que, apesar do petróleo ser constituído da decomposição de seres vivos, estes datam ainda mais antigos do que os dinossauros. mas… dinossauros causam um choque maior</p>



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  <pubDate>Sun, 16 Oct 2022 00:00:00 GMT</pubDate>
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